Um Tarzan verdadeiro

Será “The Legend of Tarzan” , enfim, um filme à altura dos livros do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs, um contador de histórias do naipe de Monteiro Lobato?

Dezenas de filmes de Tarzan foram produzidos desde que o personagem foi criado em 1910  –  entre eles, nos anos 30, os de Johnny Weissmuller, talvez os mais famoso dos Tarzans de Hollywood. Todos enfocam a vida do pequeno órfão criado na selva por grandes símios e que se torna o senhor dos animais.

legend-of-tarzan-Previsto para julho deste ano, “A Lenda de Tarzan” é diferente. Vai contar a história do homem selvagem já retornado às suas origens na Inglaterra vitoriana, onde tenta se acostumar à convivência com os humanos. Fragmentos de memória da sua infância e juventude pontuam a narrativa.

Vivendo há alguns anos com a esposa Jane em Londres, Tarzan, isto é, John Clayton III, Lord Greystoke, cidadão britânico, é chamado pelo Parlamento para voltar, como enviado da Rainha Vitória, à selva no Congo, onde passou a maior parte da vida.

Lá encontrará os mercenários belgas que exploram as minas de diamantes e maltratam o povo, dilapidando a natureza e abatendo os animais. Não é ficção: os súditos do Rei Leopoldo II da Bélgica fizeram do Congo uma colonia onde cometeram um genocídio bárbaro, que dizimou milhões de nativos com extrema crueldade, no final do seculo XIX.

tarzanJane2Diante das injustiças e ameaças à própria Jane, Tarzan vai se despindo das recém-adquiridas camadas ditas civilizatórias e regredindo ao seu estado animal original.

Enquanto os filmes de Tarzan anteriores tratam da domesticação do homem selvagem, “A Lenda de Tarzan” faz o contrário, trata do homem recém-socializado que se livra das peias culturais e reencontra a sua natureza selvagem.

O diretor é David Yates, que fez os último quatro filmes de Harry Potter. Tarzan é Alexander Skarsgård de “True Blood” e Jane é Margot Robbie, conhecida pelo papel de Naomi, a mulher de Leonardo DiCaprio em “O Lobo de Wall Street”, de Martin Scorcese. Ela será uma Jane mais participante, independente e corajosa, digna companheira do seu bravo marido-macaco.

TArzan1BSamuel L. Jackson faz o papel de George Washington Williams, uma figura histórica verdadeira, primeiro deputado estadual negro dos Estados Unidos, autor do livro “História da Raça Negra na América” e veterano da Guerra Civil, que se põe do lado de Tarzan.

Christoph Waltz (o oficial alemão de “Bastardos Inglórios”) é o Capitão Leon Rom, na exploração das minas de diamante do então chamado Congo Belga. E Djimon Hounsou (“Gladiador) faz o papel do chefe negro Mbonga.

Mas permita-me explicar por que toda essa minha empolgação com esse filme diferente do homem-macaco.

Aos 9 anos ganhei do meu pai a coleção do Tarzan, que foi aumentando pouco a pouco conforme eu crescia. Não é uma coleçãozinha de meia dúzia de livros! Tem 25 volumes, isto é, 25 histórias do Tarzan, escritas por um dos melhores romancistas de aventura e fantasia de lingua inglesa, no século passado. Foi precursor do britânico J. R. Tolkien, o melhor de todos, na minha opinião, criador de “O Hobbit” e “O Senhor do Anéis”.

Li todas as histórias do “homem-macaco” de Edgar Rice Burroughs na adolescência, assim como li as da boneca Emília e Pedrinho, Narizinho etc. no Sítio do Pica-Pau Amarelo de Monteiro Lobato. Este escrevia para crianças e adolescentes; Burroughs, para jovens e adultos.

Tarzan_207Foi dessa maneira que me apaixonei pela literatura de ficção e fantasia. Meu avô era dono da Livraria Craveiro em Lins. Crescí mergulhado em lendas e mitologias, romances históricos, contos de aventuras e, sobretudo, ficção científica. Mais tarde, nos anos 70, estudante universitário em Paris, li toda a obra de Tolkien ou quase. “O Hobbit” e “O Senhor do Anéis”, li-os duas vezes em inglês e uma em português ao longo dos anos, antes de assistí-los filmados no cinema, na última década.

Monteiro Lobato é criticado por seu ranço provinciano e racista. Tão controverso quanto Lobato, Burroughs espelha os preconceitos e a ideologia da elite intelectual britânica e americana da época, entre o final do século XIX e a primeira metade do XX.

Época do apogeu e declínio do colonialismo e da ascenção do capitalismo industrial, na Europa e nos Estados Unidos, com uma guerra mundial no meio e outra no final.

Encantei-me com o storytelling dos livros de Tarzan. O primeiro narra o destino do filho de um casal de aristocratas ingleses, que são abandonados na selva africana após um motim no navio em que viajavam para as colônias, a serviço da Coroa Britânica.

Recém-nascido, Tarzan sobrevive à morte dos país e é criado por grandes símios da floresta. Crescendo no mato, Tarzan adquire habilidades singulares. É fisicamente superior a qualquer atleta do mundo dito “civilizado”. Tem uma disciplina mental e uma fortaleza de caráter incomuns. Entende e pode se comunicar com os animais.

Espelha um arquétipo de herói raro nos dias de hoje, cheios de tecnologia e super heróis. O arquétipo do bom selvagem, forte, corajoso, próximo dos animais, como foram Rômulo e Remo, elevados por lobos, e que fundaram Roma. Ou como o protetor dos animais, São Francisco de Assis. Todos com pitadas do “bom selvagem” de Jean Jacques Rousseau.

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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