O tempo segundo o Poeta Lagartixa

Reclama-se da falta de tempo. Diz-se que a escassez do tempo é um sintoma dos tempos modernos. Mas não é. Desde sempre não ter tempo aflige a alma humana.

Nas agências de publicidade, live marketing, internet e conteúdo o grande desafio é ganhar o máximo possível do tempo do consumidor. Atrair e manter a sua atenção para o que a marca diz e faz.

Ironicamente, os profissionais dessas agências reclamam, quase sempre, do pouco tempo que têm para desenvolver seu trabalho, para estar com a família, espairecer, se divertir… Falta tempo para tudo e para todos! Nisso as agências não diferem da maioria das empresas. A gestão do tempo é um bicho de sete cabeças.

Meu pai amava e declamava poesia. Iniciou minha irmã Eliane nesse mistério que é declamar. Ela me lembrou há pouco tempo de um dos poemas que ele gostava de declamar. Era, justamente, “O Tempo” de Laurindo Rabelo, poeta romântico, médico e professor, que morreu do coração em 1864, aos 38 anos de idade, no Rio de Janeiro.

Laurindo José da Silva Rabelo viveu pouco tempo, mas, como conta o Wikipedia, divertiu-se a valer: “apreciava a vida boêmia, gozando de grande talento satírico e capacidade de improviso. Fazia repentes e compunha modinhas,  o que lhe granjeou grande popularidade”.

Por sua constituição física, preto, magro e desengonçado, era conhecido como o “Poeta Lagartixa”, famoso e maldito por seus poemas, muitos deles taxados de pornográficos ou, como se diria hoje, sexistas. É considerado um sucessor de Manuel Maria Barbosa du Bocage, o poeta romântico português, que, mais do que pornográfico, foi para muitos leitores um “símbolo libertário da sexualidade”, conforme retratado no longa-metragem luso-brasileiro de 1997, “O Triunfo do Amor“.

Papai declamava “O Tempo” para nós. Não se preocupe, nada tem de pornográfico, mas é cheio de ironias sobre o tempo e a sua contagem. Levei tempo para me dar conta das nuances de “O Tempo”. O Poeta Lagartixa se diverte com as palavras “tempo” e “conta” ou “contar”, empregadas em diferentes combinações e com distintos sentidos. Experimente ler. Eis um passatempo que tem conteúdo.

Deus pede estrita conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta…
Mas como dar em tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo!

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não fiz conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta,
Não gastei esse tempo em passatempos:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta!

Mas oh!, se os que contam com seu tempo
Fizessem desse tempo alguma conta,
Não choravam como eu o não ter tempo…

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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