Quanto do risco de ter câncer se deve ao azar?

Publiquei ontem a notícia “Azar é a principal causa do câncer, dizem cientistas.” Depois saiu também no Jornal Nacional. E é detonada aqui pelo Prof. Altay Lino De Souza.

Altay foi nosso professor de Estatítica no curso de uma semana, organizado pelo Ken Fujioka, no ano passado, para algumas dezenas de planejadores. Ouso dizer que foi o melhor professor que tive na vida, pois me fez entender  –  admirar e amar  – a Estatística. Sério.

Aliás, estou me organizando para atender outra vez o curso de Introdução à Estatística do Prof. Altay, que será dado no fim de janeiro na UNIFESP, Universidade Federal de São Paulo, onde é Pesquisador PHD. Em vez de planejadores, médicos. Por que outra vez? Porque ele bem me avisou: “Daqui um mês, quem não praticar, vai esquecer tudo que aprendeu aqui.” De fato, esqueci.

O que vem a seguir é o comentário do Prof. Altay sobre Azar & Câncer, publicado no grupo que ele conduz no Facebook: Estatística aplicada a Psicobiologia. Visto a carapuça e passo a palavra ao Mestre (a divisão em seis capítulos e os seus respectivos títulos são de minha inteira responsabilidade, com perdão do atrevimento).

Uma bobagem espalhada por aí

Para começar bem este 2015 já inicio os trabalhos com mais uma bobagem espalhada por aí por nossos queridos jornalistas e referendada pela “má fé” de autores que queriam deixar seu artigo mais chique colocando certos termos mais chamativos para convencer o editor da Science a publicar seu artigo…

Sabem aquela notícia que tem aparecido estes dias que boa parte dos cânceres são atribuídos simplesmente à falta de sorte? Aqui tem um exemplo de uma das notícias veiculadas: “Cancer often caused by ‘bad luck’, not genes, say Johns Hopkins researchers“.

Má sorte, não, mau jornalismo

O problema é que não é nada disso… Confesso que fiquei tão desgraçado da cabeça (o ano nem começou e já é dia 2…) que pensei em fazer alguma bobagem qualquer, mas pelo visto outros também ficaram tão putos quanto eu: “Bad luck, bad journalism and cancer rates.

Parte da culpa é de fato dos jornalistas e editores de conteúdo que só leem os resumos dos artigos (quando leem). Porém, boa parte desse problema são dos autores que fazem a “filhadaputice” de tornar “seu Abstract mais atraente para o leitor” colocando termos que geram muito mais ruído do que entendimento. Esse é um exemplo que reflete uma série de problemas já presentes na relação entre academia e divulgação científica mediada pelas relações de trabalho e lógica do trabalho.

Por conta disso tudo, gostaria de pedir a atenção de vocês, sobretudo meus colegas acadêmicos para alguns pontos.

Leia o artigo original, stupid

1. Em nome da humanidade, leia o artigo original (principalmente o povo do rato e da célula) antes de compartilhar esse tipo de notícia por aí: “Variation In Cancer Risk Among Tissues Can Be Explained By The Number Of Stem Cell Divisions“.

WTF is "bad luck"

2- Antes de falar sobre “bad luck“, defina que diabo é isso! Nada contra falar sobre azar no contexto científico (aliás é um tema muito interessante) mas a primeira coisa que eles fazem nesses artigos é definir o que é azar! E essa foi a grande bobagem dos autores do artigo original (o artigo em si é muito bom, fora essa falta crucial da definição de azar que tornou o artigo popular pela razão errada).

3- “Bad luck” e “Randomness” não são a mesma coisa! Sobretudo por conta do ponto 2.

Quanto do risco de se ter câncer se deve ao azar?

4- Já que você leu até aqui mesmo, vai lá no artigo original é veja a Fig. 1 “The relationship between the number of stem cell divisions in the lifetime of a given tissue and the lifetime risk of cancer in that tissue.” Nesse gráfico (abaixo replicado) temos a correlação entre o número de divisões celulares e o risco de desenvolver câncer durante a vida (ele assume vida como 80 anos, mas ele só fala disso no material suplementar) e temos uma correlação positiva forte (r=0,83).

F1.large

Logo, quanto maior o número de divisões, maior o risco de ter certo tipo de câncer. Isso é um fenômeno estocástico (tempo-dependente). Por isso que temos uma associação muito forte entre a chance de câncer e idade (quanto mais velho, mais divisões e por aí vai)

Fazendo o R quadrado do r, temos 0,63 que é a % da variação que o número de divisões explica do risco de ter câncer (e é isso que aparece em boa parte das notícias como sendo a “taxa de azar” de se ter câncer)

Porém, a porra do gráfico está padronizada em LOG! E isso é crucial! Logo, o 0,63 é a variação no LOG do risco. Essa variação pode ser a mesma, independentemente se o risco basal é alto ou baixo. Em outras palavras, o que os autores fizeram foi explicar a variação no Log do risco de se ter câncer, nada se fala sobre o risco absoluto de ter câncer.

Enfim, o quanto do risco de se ter câncer se deve ao azar? Supondo que azar seja você ser acometido por um evento negativo, independentemente do que faça para evitá-lo a resposta é NÃO SEI e esse raio de artigo não ajuda a elucidar essa questão, pelo menos com os dados que ele apresenta!

Resumo sim, slogan não.

5- Quem curtir o estatistiquês, vale a pena ler o material suplementar do artigo. A maneira como ele conduziu as análises e fez o ERS é massa.

6. Na hora de fazer Abstracts dos seus artigos científicos para chamar a atenção dos leitores, tentem resumir os achados de seu trabalho em uma frase (como se fosse contar para sua vó sobre o que é seu artigo) e não fazer slogan do artigo para a capa da Super Interessante!

7. Feliz Ano Novo a todos!

Sem comentários

Comente

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*

Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
  • Últimas do Instagram