Planejando a 1ª expedição legal ao Pico da Neblina

Tínhamos só um dia para definir as metas da missão Yaripo. Que trilha seguir? Quantos e quais guias Yanomami? Que tarefas cumprir e que carga levar?

DSCF3340Foi trabalhoso decidir isso coletivamente com dezenas de indígenas interessados em participar da Yaripo, nome Yanomami do Pico da Neblina, da expedição, do projeto e de uma futura startup de ecoturismo com base comunitária.

Por isso o ginásio de esportes da Missão Salesiana lotou com as principais lideranças, o povo e as novas gerações, na esperança de fazer do ecoturismo uma fonte de renda sustentável.

Para conhecer os antecedentes desta história, leia os dois posts anteriores: “A startup de ecoturismo sustentável dos Yanomami” e “Partiu a expedição piloto Yanomami ao Pico da Neblina“.

O encontro de planejamento coletivo foi convocado pela AYRCA, Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes. Bem cedo, caminhamos cerca de dois quilómetros na trilha que leva do alojamento do 5º Pelotão de Fronteira à escola dos Salesianos.

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Marcos do ISA cumprimenta os tuxáuas Yanomami

Um a um, os brancos, fomos apresentados à comunidade indígena, curiosa de ver presentes ali, pela primeira vez, um Procurador do Ministério Público Federal no Amazonas, Fernando Soave, e o Presidente do Conselho Diretor do ISA, Instituto Socioambiental, que sou eu.

Marcos Wesley, Coordenador-Adjunto do Programa Rio Negro do ISA, é o único de nós que fala fluentemente um dos idiomas Yanomami. Morou e trabalhou durante muitos anos nas comunidades de Roraima e é coordenador do ISA no Projeto Yaripo. Foi saudado com carinho nas arquibancadas. Assim como o antropólogo do ISA, Renato Soares, que assessora a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, FOIRN.

Flávio Bocarde, chefe do Parque Nacional do Pico da Neblina, e Luciana Uehara, ambos do ICMbio, Instituto Chico Mendes para a Biodiversidade, conduziram os trabalhos, anotando a essência da conversa em flipchart.

Os tuxauas Yanomami se revezaram, falando sobre a importância desse projeto que tornará legal o que até agora vinha sendo feito de maneira oculta e ilegal.

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Tuxaua Miguel

Apesar de proibido pela FUNAI desde 2003, o turismo em território indígena, sobretudo, no Parque Nacional do Pico da Neblina, prossegue clandestinamente em benefício de apenas algumas pessoas, que “vendem”, para agências de turismo-aventura oportunistas, a preço de banana, o acesso à terra proibida. Há muitos casos similares por todo o Brasil.

Os turistas são atraídos pelo Yaripo, que quer dizer “montanha dos ventos”, por ser o ponto mais alto do Brasil e estar localizado justamente na Terra Indígena Yanomami, uma das regiões mais preservadas e belas da Amazônia. Os Yanomami consideram o Yaripo um lugar sagrado, onde habitam os espíritos dos seus antepassados.

Eles formam uma sociedade de caçadores-coletores-agricultores. De xamãs e guerreiros também. Para eles a Urihi ou Terra-Floresta  “não é um mero espaço inerte de exploração econômica –  o que chamamos de ‘natureza’. É uma entidade viva, inserida numa complexa dinâmica cosmológica de intercâmbios entre humanos e não-humanos” (site Povos Indígenas no Brasil do ISA).

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Monte Opota ou Morro do Padre

O Yaripo, Pico da Neblina, “rodeado por serras, tem aos seus pés um manto de floresta densa e, nas proximidades do cume, nascem plantas raras somente ali encontradas, tudo em meio a rios de águas pretas que contrastam com praias de areia branquíssima” (Plano de Visitação, a ser formalizado proximamente).

A expedição partiu na manhã do 15 de julho, em meio a muito otimismo e uma enorme infelicidade. Naquela madrugada, um jovem Yanomami de 23 anos, membros da comunidade que esteve conosco no ginásio no dia anterior, se embebedou e se enforcou.

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Irmão José dos Salesianos

A tristeza se abateu sobre todos, tão fortemente quanto a incompreensão do por quê daquele gesto. Tristeza por confirmar que o alcoolismo e o suicídio andam de mãos dadas e incidem mais nas comunidades indígenas entre os jovens do que em qualquer outro local onde vivam brasileiros. Tristeza pelo peso de uma dívida inelutável que temos com eles.

Teria adorado fazer a jornada ao Pico da Neblina, mas, infelizmente, não tenho mais condições físicas para andar 9 dias morro acima e morro abaixo com mais de 10 quilos nas costas, dormindo em redes no mato e comendo mui regradamente.

Subiram 24 indígenas, 5 militares e 5 civís para fazer o etnomapeamento do Yaripo. Sem contar outro grupo de Yanomami que teria um trajeto alternativo de apoio, deixando suprimentos e insumos ao longo da trilha, para a volta do grupo principal.

Vale a pena ler o capítulo “Justificativas” do Plano de Visitação, para entender a importância sócioeconômica e cultural do Projeto Yaripo:

O ecoturismo ao Yaripo é uma iniciativa promissora do ponto de vista econômico, necessária sob o aspecto da proteção territorial e desejável para o fortalecimento cultural.

Do ponto de vista econômico, o ecoturismo ao Yaripo é uma alternativa de geração de renda para as comunidades yanomami. Atualmente, os poucos assalariados (professores, agentes de saúde) e pessoas que recebem benefícios sociais (aposentadoria, bolsa-família, bolsa-amamentação) não conseguem suprir as necessidades das 1.635 pessoas que vivem na região.

Essas necessidades têm várias origens, sendo a principal a carência por bens manufaturados hoje imprescindíveis, como  ferramentas para fazer roças (facão, enxada, machado, foice, cavador), utensílios para preparar alimentos (panela, faca, bacia, prato, colher, garfo), artigos para dormir e vestir (rede, coberta, roupas, calçados) e bens para o transporte (bote, motor, combustível).

Com a implementação do ecoturismo ao Yaripo, estima-se que 80 Yanomami passarão a ter renda prestando serviços como guias, carregadores, cozinheiros, serviços gerais, barqueiros, artesãos e coordenadores do empreendimento, beneficiando indiretamente um número aproximado de 800 pessoas. Além dos Yanomami que irão receber pagamento pelos serviços prestados, as comunidades se beneficiarão com o lucro da atividade turística, pois ele será revertido para fins comunitários seguindo as determinações da assembleia geral da AYRCA, da qual participam todos os Yanomami da região.

Sob o aspecto da proteção territorial, o ecoturismo ao Yaripo se apresenta como uma alternativa ao DSCF3359garimpo de ouro atualmente em vigor nos arredores do pico, praticado tanto por invasores quanto pelos próprios Yanomami. O garimpo na região é uma atividade duplamente ilegal, pois é realizada dentro da Terra indígena Yanomami e do Parque Nacional do Pico da Neblina, mas se mantém pela ausência de um combate efetivo por parte dos órgãos responsáveis – Polícia Federal, Funai, ICMBio e Ibama. Também contribui para a manutenção do garimpo ilegal a conivência e participação de alguns Yanomami que se beneficiam com a atividade.

A maioria deles são jovens do sexo masculino, casados e com filhos, que buscam na DSCF3476atividade garimpeira uma renda para manter a família. Trabalham por conta própria com garimpo manual de ouro ou como carregadores para os garimpeiros invasores. Para se ter uma ideia, dos 55 jovens que participaram da 5a etapa de elaboração do Plano de Visitação ao Yaripo, 45 deles trabalharam ou ainda trabalham no garimpo. Todos eles dizem trabalhar por necessidade e se queixam de não terem outra alternativa. Avaliam o garimpo com sendo prejudicial à Natureza e a eles próprios, por se tratar de um trabalho duro e penoso. A expectativa de todos eles é que com a chegada do ecoturismo será possível deixar o garimpo para se engajar numa atividade mais prazerosa e rentável, além de não degradar o meio- ambiente.DSCF3497

Esses jovens que querem trabalhar com o ecoturismo veem na atividade não só a possibilidade de obter alguma renda, mas também de conhecer mais sobre a sua própria cultura. O desejo de trabalhar com os turistas e de subir ao Yaripo está despertando o interesse por mais conhecimento junto aos anciãos. Querem saber mais sobre os seres que habitam aquela região e sobre como respeitá-los, garantindo assim maior segurança para si e para o grupo que estarão acompanhando. Sabem que os hekurapë, espíritos auxiliares dos xamãs, moram nas montanhas e pedras e que cada uma delas têm os seus guardiães. Desejam conhecer mais sobre os guardiões do pico da Neblina, Yoyoma e Piyawawë, e demais hekurapë que nele habitam, como Ruwëriwë, associado ao frio, à escuridão e às nuvens de tempestade; Yariporari, ser do vento e da tempestade que é considerado muito perigoso por ter uma força assustadora que derruba tudo em seu caminho; e o ser Wariwë, responsável por acidentes envolvendo picadas de cobra. Por fim, estes jovens também esperam aprender com os anciãos os nomes dos igarapés, plantas e locais de ocupação antiga que existem ao longo da trilha que leva ao Yaripo, para poderem compartilhar estes conhecimentos com os turistas.

Este projeto se justifica por possibilitar que pessoas do mundo todo possam conhecer os Yanomami e o lugar precioso onde vivem, aprendendo um pouco de sua cultura e desfrutando de sua hospitalidade para que, assim, os preconceitos sejam superados e a aliança em defesa dos direitos indígenas seja ampliada.

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Igarapé Maturacá

O videoclipe de abertura é “Yanomami People“, com a canção “Yanomami e Nós” de Milton Nascimento, Baú Meteoro.

As lindíssimas fotos dos Yanomami em preto e branco, que constam no vídeo, são de Sebastião Salgado. Nada mais, nada menos.

Foram publicadas pelo Washington Post em excelente reportagem (2014), cuja leitura recomendo vivamente: “The Yanomami: An isolated yet imperiled Amazon tribe.

 

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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