Daniel Redondo, chef do Maní

Nadando contra o tempo

Crônica da Fernanda Valdívia, chef da Padoca do Maní, revela um novo significado do verbo “nadar”.

A Todo Vapor

Do alto da escada acompanhamos a velocidade do restaurante, está explícita na expressão de quem sobe. E sobem todos eles, aos montes, dezenas de vezes ao dia atrás de cebola, caldos, mandioquinha, manteiga, páprica, caju, e ar puro. Muitas vezes eles sobem apenas para tomar fôlego e é assim todo santo dia. Eis que de repente, surge um sinal de Tsunami, é o primeiro cozinheiro a demonstrar qualquer desespero como se a produção tivesse saído do controle: cara, estou nadando.

Nadar é o termo que melhor define a agonia de saber de cor e salteado tudo o que precisa ser feito até um certo horário e desconfiar de que não vai dar tempo de nada. Você tem lá seu programa de coisas a fazer, que sempre coube bem naquele espaço de tempo, mas um belo dia um contratempo acontece e você tem que acelerar o corpo para tirar o atraso. Pode ser algo que saiu errado e tem que refazer, pode ser um maior volume da mesma coisa porque consumiram mais na noite anterior, ou pode ser que seu chefe acorde inspirado e resolva mexer na sua mise en place. Sabe aquela gratin de mandioquinha? Esqueça, agora será de arroz com coco. Arroz? Sim, corra! Quem cruza o coitado pelo corredor, pensa: antes com ele do que comigo. É como uma loteria, um dia o chefe escolhe mexer na sua praça.

Daniel Redondo, chef do Maní

Daniel Redondo, chef do Maní

Pois hoje, do alto da escada, passados alguns minutos, apareceu um segundo nadador, ainda mais aflito do que o primeiro. Outro traço comum dessa natação peculiar são as piadas contadas para ninguém, dentro da câmara fria. O cara tira sarro de si mesmo, porque dar risada é uma forma de extravasar o nervosismo. Lá dentro o coração bate: não vai dar tempo, não vai dar tempo.

Em seguida sobe o terceiro, o quarto, como se fosse um campo minado, você vai desviando de todos eles, nadando em sentido contrário. Até que finalmente alguém te cutuca pelas costas e quando você se vira: o Dani está te chamando. Ia tudo bem só me faltava assar os pães da noite, bater a massa do dia seguinte, hoje é meu rodízio, ainda tenho que responder uns e-mails, mas sim chefe! E enquanto ele falava, eu me sentia sentada à beira da piscina, vestindo o pé de pato, colocando os óculos, alongando os braços, e finalmente: – Oído? É a palavra de ordem, significa que você pode pular na água.

Hoje o restaurante inteiro correu contra o tempo e acompanhou o surgimento de grandes pratos, grandes ideias. É isso que mantém a chama acesa, a adrenalina em alta, o sangue pulsando forte. É também o que nos alimenta, nos inspira, e renova o carinho por aquilo que fazemos.

E que amanhã nademos ainda mais!

(clique aqui para ver a crônica original no blog do Maní)

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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