How do I love thee? Let me count the ways.

“Como eu te amo? Deixa-me contar os modos”. A declaração de amor mais bonita, significante e sucinta que eu conheço. De uma esposa,  poetisa, ao marido, poeta.

Ela é Elizabeth Barrett Browning (1806 – 1861), representante inglesa do movimento romântico. E ele, Robert Browning, que se apaixonou por ela sem conhecê-la, por causa da poesia. Corresponderam-se durante muito tempo, antes de se conhecerem pessoalmente e se casarem. Sim, viveram felizes até a morte os separar.

É um conto de amor, delicado e encantador, bem resumido nesse blog da Eliane Bonotto. “Em 573 cartas, a história registrou uma das mais impressionantes, comovedoras e reveladoras expressões de relações humanas de que se tem notícia.”

Quero compartilhar a tradução que fez Manuel Bandeira desse poema, o nº 43 dos “Sonetos Portugueses” da Elizabeth.  É uma verdadeira recriação, como se o soneto fosse concebido em português.

Ou, no dizer de outro grande tradutor, Abgar Renault, se referindo aos sonetos de Elizabeth, que o Bandeira traduziu: “…transferiu ao português, em número de três, com tal propriedade, emprestando-lhes tal força, tal intensidade, vida tão nova, que não sabem a traduções, senão a produções originais.”

O curioso é que Bandeira excluiu o primeiro verso, pois em inglês compõe-se de palavras monossilábicas, algo impossível de se reproduzir em português. “A inclusão dessas dez palavras  –  How do I love thee? Let me count the ways.  –  todas de uma só sílaba, redundaria num verso a mais em português, verso que, aliás, nada encerra de essencial”. Leia mais aqui sobre isso (conferência de Ivan Junqueira na ABL).

howdoilovethee-tl

“Amo-te quanto em largo, em alto e profundo
Minha alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo
À luz do sol, na noite sossegada,
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.
Amo-te até nas coisas pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quiser,
Ainda mais te amarei depois da morte.”

 

O manuscrito acima pode ser difícil de decifrar. Veja abaixo o soneto original em inglês:

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.
I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right.
I love thee purely, as they turn from praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

O cartunista norte-americano Charles Schulz também gostava desse soneto. No episódio “Be My Valentine, Charlie Brown” de 1975 na TV, a irmã mais nova do Charlie, Sally, se surpreende ao achá-lo impresso em um doce. Ela o lê em voz alta enquanto o Snoopy faz mímicas.

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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