Em Ciência Política também há fraude

Pesquisa da Universidade da Califórnia em Los Angeles afirma que os cabos eleitorais, conversando com os eleitores em casa sobre o casamento gay, são mais convincentes quando revelam ser gays.

Publicada na Science Magazine, em dezembro de 2014, a pesquisa When contact changes minds: an experiment on transmission of support for gay equality – “Quando o contato modifica as mentalidades: um experimento de transmissão do apoio à igualdade gay”  –  é considerada uma das maiores enganações pseudo-científicas dos últimos tempos. Foi eliminada da revista Science depois que o caso foi denunciado, na última semana de maio passado, justificando uma retratação editorial.

Quem contou esse caso e me deu pistas foi o Prof. de Estatística Aplicada à Psicobiologia da UNIFESP, Altay Lino de Souza, que é também autor do curso de “Introdução à Estatística para Planejadores e Outros Publicitários“, coordenado por mim no Grupo de Planejamento.

O mau uso da pesquisa científica é muitíssimo mais comum do que se imagina. Já caí nessa antes, como escrevi em “Quanto do risco de ter câncer se deve ao azar?

Publiquei ontem a notícia “Azar é a principal causa do câncer, dizem cientistas.” Depois saiu também no Jornal Nacional. E é detonada aqui pelo Prof. Altay Lino De Souza.

A pesquisa californiana, conduzida por um aluno de graduação em Ciência Política da UCLA, Michael LaCour, com orientação de respeitado professor de política, Donald Green, foi desmascarada por um aluno de pós-gradução da Universidade da Califórnia em Berkeley, David Broockman, que teve o mesmo orientador Green, quando se graduou em Yale.

Michael LaCour

Michael LaCour

David ficara bem impressionado com os resultados da pesquisa ainda em andamento, que LaCour lhe mostrou no iPad em 2013. Revelavam que uma rápida conversa sobre a igualdade de direitos do casamento gay, entre os eleitores e os cabos eleitorais que se identificavam como homossexuais, tinha uma influência maior e mais duradoura sobre a opinião dos primeiros, em comparação com as respostas registradas online, antes e depois da conversa.

Entusiasmado, David Brookman, tido como nerd da ciência política, resolveu ele próprio reproduzir o experimento do Michael. Afinal, os resultados desafiavam princípios estabelecidos da persuasão política. Estudos anteriores comprovavam que a ação de cabos eleitorais podia dar resultados em certos casos, mas nenhum tinha a magnitude deste. Pois os indivíduos costumam se apegar ferrenhamente às suas crenças políticas. Mesmo quando se consegue modificá-las um pouquinho, para a esquerda ou para a direita, tendem a voltar ao que eram antes, passado o efeito dos novos argumentos.

Michael jurava (e ainda jura) que uma conversa breve com ativistas gays sobre direitos e casamento entre homossexuais era (é) capaz de produzir uma mudança grande e duradoura na opinião dos eleitores californianos.

Por isso, quando a pesquisa saiu, até o New York Times lhe deu atenção: Gay Advocates Can Shift Same-Sex Marriage Views  –  “Ativistas gays podem mudar de opinião sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

Foto: Cortesia de David Broockman ao NY Magazine

Foto: Cortesia de David Broockman ao NY Magazine

Mas  o que fez o estudo do LaCour ruir não foi nenhum erro estatístico ou imprecisão metodológica (à parte não divulgar o banco de dados, que permitiria a outros pesquisadores checar os resultados). Michael afirmou na pesquisa ter usado uma amostra de 10.000 respondentes, pagando U$ 100 a cada um.

David ficou abismado: de onde um estudante de graduação tiraria um milhão de dólares para viabilizar tamanha amostra? Contatou vários institutos de pesquisa pedindo o orçamento para fazer o mesmo estudo. A maior parte deles recusou e os que não recusaram lhe passaram custos altíssimos.

Na semana passada, David Brookman denunciou a fraude, publicando o seguinte artigo com a ajuda de dois colegas acadêmicos: Irregularities in LaCour (2014).

Michael LaCour admite não ter mais o banco de dados da pesquisa, mas assevera que o resultado é correto. No momento, aguarda a punição disciplinar que lhe deverá ser imposta pela UCLA e pela Universidade de Princeton, onde iria começar a trabalhar em breve.


Photo by Elvert Barnes – Flickr Creative Commons. Fontes: New York Magazine  –  The Case of the Amazing Gay-Marriage Data: How a Graduate Student Reluctantly Uncovered a Huge Scientific Fraud  e  Michael LaCour Probably Fabricated a Document About Research Integrity; Science Magazine  –  When contact changes minds: An experiment on transmission of support for gay equality  –  Editorial expression of concernDavid Broockman, Joshua Kalla e Peter Aronow – Irregularities in LaCour (2014); BuzzFeed – Author Of Tainted Gay Marriage Study Admits To Destroying Data But Stands By Results.

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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