Declaração antecipada dos custos de toda campanha política

Já pensou se todos os candidatos políticos tivessem que declarar, antes da eleição, quanto pretendem gastar na sua campanha? Essa é a ideia do Paulo de Tarso da Cunha Santos, publicitário especializado em marketing político.

Paulinho é meu amigo de longa data. Fez inúmeras campanhas políticas nas últimas três ou quatro décadas. Sem preconceitos, trabalhou para diversos partidos, como o PT, o PMDB, o PSDB, a REDE SUSTENTABILIDADE etc.. Durante a ditadura militar, viveu seis anos no exílio com os pais e irmãos no Chile. É filho de Paulo de Tarso Santos, ex-vereador por SP, deputado federal, prefeito de Brasilia e Ministro da Educação de João Goulart.

Reproduzo abaixo a proposta do Paulo, na íntegra, publicada nesta semana no Facebook.

Ele conclama os colegas de profissão a aperfeiçoarem a ideia. Creio que as grandes agências de publicidade, quase todas interessadas em alguma fatia das contas públicas, também poderiam debater e aprimorar esse conceito de planejamento financeiro antecipado das campanhas. Como fazem ou deveriam fazer as grandes empresas públicas, que definem objetivos de marca e comunicação e o quanto precisam investir para alcançá-los, a cada período de atuação no mercado.

Assim também poderia ser com todo político em campanha eleitoral. Não acha?


PROPOSTA PÚBLICA AOS NOSSOS COMPANHEIROS DE PROFISSÃO: MARQUETEIROS E AFINS.

Por Paulo de Tarso da Cunha Santos

A chaga da democracia ocidental (não sei onde é diferente) é a hiprocrisia. Parte do modelo de dominação vem da falta de transparência sobre os custos naturais da política. Interessa aos poderosos de todos os campos, não dar visibilidade aos custos da política.

Nesse assunto, quem domina a técnica de arrecadação e tem alianças para arrecadar, fazer dinheiro, fisiologisar, não tem interessse em democratizar a informação para se manter eternamente no poder. O conceito: não se dá colher de chá para o adversário. Ele é óbvio.

E assim, a hipocrisia dos que praticam o patrimonialismo busca outros culpados para distrair a sociedade. Nos últimos tempos no Brasil esses culpados temos sido nós os marqueteiros, que em outros países são como outros profissionais, há os sério e os não sérios.

Estudando um pouco (preciso estudar mais) descobri uma forma do que talvez possa ser uma solução para nós: DECLARAÇÃO ANTECIPADA DOS CUSTOS DE CAMPANHA. O que isso significa: cada projeto de poder faz seu planejamento de gastos e declara ANTES DA ELEIÇÃO ao TSE. E, depois, ainda faz prestação de contas pós campanha.

É público que todos os projetos políticos têm planejadores de campanha internos, operadores, que tem todas as condições de estimar os gastos. Isso já é feito informalmente por eles.

Os gastos básicos: comunicação , logística, alianças. São esses, os tópicos mais gerais que necessitam ser detalhados por itens tipo pesquisas, monitoramento, relações com a mídia, decoração de comitês, número de comitês, automóveis, aviões e assim por diante.

Apresenta- se ao TSE e consequentemente à opinião pública que poderá comparar esses gastos. A mídia poderá analisar cada planejamento e criticá-lo técnica e politicamente. Se um partido planejar gastar 100 milhões com um marqueteiro e outro partido planejar 4 milhões, por exemplo, ele terá que responder à opinião pública porquê, em ambiente de mercado, sem proibicionismo, com meritocracia, e esse será mais um dado na cesta de decisão de voto do eleitorado. E o que foi pago deverá constar da declaração de renda do marqueteiro.

Vou repetir de novo só para sintetizar a tese: DIVULGAÇÃO ANTECIPADA DO PLANEJAMENTO DE CAMPANHA para avaliação da sociedade e a busca da transparência.

Os números poderiam ser aditados em 10% ou 20% para caso de erro de planos, ou de candidaturas que surpreendam, recebam apoio popular durante o pleito e aumentem sua capacidade de investir, oferecendo assim apoio à criação de novas lideranças políticas, mas os aditamentos teriam que ser divulgados, virar manchetes de jornais.

Todos os que vierem a ser contratados em cada item do planejamento pagarão impostos. E os casos de caixa dois, como parece já vai ocorrendo, receberão punição severa, cassação e criminalização dos envolvidos.

Os marqueteiros não serão vilanizados, nem terão suas vidas e de suas famílias preconceituadas por conta dos erros alheios. Só se eles mesmos errarem, como qualquer cidadão, pagarão por isso. A categoria não mais será julgada de baciada, como um todo, servindo de bode na sala para os piores interesses.

Este ano tem mini reforma eleitoral nova e poderemos ter duas atitudes: sentar e esperar que um outro Cunha nos leve à situação que vivemos em 16, ou tentar participar. Convido os colegas a tentar estudar propostas para dar transparência ao nosso trabalho para que não sejamos atropelados pelo trem da campanha de 18.

Há questões fundamentais a serem discutidas (por exemplo, de onde virão os fundos, públicos, privados ou mistos), mas essa não é tarefa nossa como profissionais, é responsabilidade dos políticos. Ao contrário do que muitos pensam, somos apenas profissionais de comunicação política.

Nosso foco, na minha opinião, deve estar na requalificação da nossa remuneração, para acabar com as lendas e viver em paz, sem assassinatos de reputação. É uma ideia. Esse sistema já funciona em Portugal muito bem e creio, na Alemanha, estou estudando.

Não se trata de procrastinar a Reforma Política que virá ao seu tempo, mas avançar em teses sobre ela. Vamos debater. Vamos sair da toca. Vamos fazer uma tentativa quase impossível de influir.

Abs a todos os colegas aqui da rede. Novos imputs e opiniões são muito, mas muito, importantes. Humildemente, convido a quem quiser para postar ideias sobre o tema. Só a união vai nos levar a algum lugar. O lado de lá é muito forte.

PS: em Portugal a maioria dos partidos não gasta o que planeja. Gastam menos para ficar bem na foto.

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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