Chefs pelo Agro, o quê?

A polêmica se instalou na cena gastronômica em torno de uma ação de marketing para celebrar o Dia do Produtor Rural. O evento “Chefs pelo Agro” foi criado para aproximar a sociedade do agronegócio nacional, segundo os autores.

Mas acabou causando um debate na sociedade civil. Uma forte oposição se levantou no meio gastronômico, unindo chefs respeitáveis como Bel Coelho, Bela Gil, Helena Rizzo, Ivan Ralston e Paola Carosella.

Por um lado, sob a égide do movimento Banquetaço, que liderou a luta contra a “farinata” do João Dória, foi publicado um manifesto criticando o evento com o apoio do Greenpeace, Slow Food Brasil, Da Terra Ao Prato, Iacitá Amazônia Viva e  #342Artes.

Do outro lado, estão a poderosa Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que promovem no sábado, 28 de julho, a “Chefs pelo Agro” – Feira Senar de Alimentos e Gastronomia, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, conforme noticiado no release oficial e informado pelo FoodNews.

A ideia é aproximar a sociedade do setor agropecuário, mostrando o trabalho e a representatividade do Sistema (…) Produtores e chefs renomados da culinária nacional vão se unir para transformar alimentos como queijo, azeite, embutidos, batata, café, mel e pimenta em pratos que poderão ser adquiridos durante o evento, que será aberto ao público.

Como publicitário e planejador que sou, consigo perceber os erros e os acertos dessa ação de marketing. É uma extensão da forte campanha de propaganda criada pela Globo, ‘Agro: a Indústria-Riqueza do Brasil’, que assola a TV há talvez mais de dois anos com o bordão “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo.”

Faz sentido a proposta de usar um evento de live marketing para melhorar a imagem do agronegócio e criar aproximação com as pessoas.

O que não faz sentido é forçar a barra adotando como nome a expressão “Chefs pelo Agro”, em acintosa referência à dita campanha publicitária. Como se os “chefs” fossem a favor do agronegócio, indistintamente.

Para agravar o destempero, a organização do evento mobilizou pequenos e médios produtores rurais, muitos deles de produtos orgânicos, exatamente no período em que o seu patrocinador-mor, a CNA, tenta aprovar no Congresso, com o suporte da bancada ruralista, o Projeto de Lei 6299/02, a “PL do veneno”, como é chamada pela oposição, que visa atualizar a lei dos agrotóxicos de 1989.

A proposta é do atual ministro da agricultura, pecuária e abastecimento, Blairo Maggi, do PP. Entre outras manobras mais graves, quer mudar o termo “agrotóxico” para “defensivo fitossanitário”.  Conforme noticiou o G1, esse “Projeto de Lei sobre agrotóxicos, o ‘PL do veneno’ põe o lucro acima da saúde das pessoas”.

Ora, quem produz orgânicos e alimentos artesanais, como  boa parte dos participantes do evento, seguramente desaprova os agrotóxicos, chamem-se eles pesticidas ou defensivos-que-forem. E o drama aumenta mais quando se sabe que os convidados não foram devidamente esclarecidos sobre quem são os patrocinadores e sobre a sua bandeira atual em prol do uso facilitado de agrotóxicos na agropecuária.

Ou seja, o agronegócio se vale dos produtores orgânicos (que não se excedem no uso de defensivos agrícolas) para se valorizar, justamente quando tenta aprovar a liberação do uso de agrotóxicos no país. Acredito piamente que a maior parte dos participantes não se deu conta disso, por desinformação ou ingenuidade.

Dizem que o Nizan Guanaes está por trás do marketing do agronegócio no Brasil desde o ano passado, conforme noticiou o site De Olho Nos Ruralistas. Terá sido um erro primário abusar da boa vontade e ingenuidade de produtores orgânicos e chefs de cozinha desavisados.

Leia a seguir na íntegra o Manifesto Banquetaço, coordenado pelo sociólogo Carlos Alberto Dória:

Nós, que nos unimos através da luta contra a “farinata” e a favor de uma alimentação de verdade;

Nós, que permanecemos unidos na luta contra o “pacote do veneno”, patrocinado pela bancada ruralista no Congresso Nacional;

Vimos agora a publico manifestar…

NOSSO REPÚDIO à manobra promovida pelo evento Chefs pelo Agro – Feira SENAR de Alimentos e Gastronomia, a se realizar dia 28 desse mês no Parque do Ibirapuera, e que tem explicitamente “como objetivo aproximar a sociedade do setor agropecuário”.

Chefs e cozinheiros que têm se destacado na luta por uma alimentação sadia e de verdade, têm feito oposição aberta ao “pacote do veneno” apresentado ao Congresso pela bancada ruralista e com largo apoio do agronegócio, o maior consumidor de venenos no Brasil – especialmente na produção de soja, milho, cana de açúcar e algodão.

O alimento que chega à mesa do brasileiro é, ao contrário do que se tem propagado pelos ruralistas, majoritariamente, originado na agricultura familiar que, mais e mais vem se convertendo à agroecologia e manejo sustentáveis da terra justamente por ser vítima direta do emprego indiscriminado de agrotóxico nas lavouras. Portanto, essa feira não representa o esforço dos que dispõe alimentação diária em nossa mesa, nem muito menos fala em nome da gastronomia brasileira ou dos que lutam pela salvaguarda das culturas tradiconais.

O agronegócio e seus representantes sabem que, apesar de terem aprovado o PL do veneno em comissão especial e contarem com o apoio massivo do poder legislativo no congresso nacional, não têm aval da sociedade civil. A população tem consciência de que esse setor tem interesses escusos e privados em detrimento de sua saúde e bem-estar.

Chefs pelo Agro não passa de uma ação, uma cortina de fumaça, para esconder a política de envenenamento crescente da agricultura e pecuária, como pretende o setor que promove a iniciativa. Ao repudiá-la, conclamamos todos os trabalhadores da cadeia alimentar a cerrarem fileiras contra o pacote do veneno, exigindo a redução do uso dessas substâncias da morte na alimentação de todos nós.

Chefs Bel Coelho, Bela Gil, Helena Rizzo, Ivan Ralston e Paola Carosella

 

 

1 Comment

  1. Caique Paes de Barros

    27/07/2018

    Ao dizer “conclamamos todos os trabalhadores da cadeia alimentar a cerrarem fileiras ” e não conquistar um comentário sequer posso deduzir que a proposta foi furada?
    Os radicais querem se impor e inviabilizar o oponente totalmente e a qualquer custo.
    O agro não é só orgânico como também não é só soja. É muito mais. A convivência e a miscigenação é o caminho.

    Reply

Comente

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*

Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
  • Últimas do Instagram