A útima loja Blockbuster no mundo e o fim de uma categoria

Melancólico, o fim da Blockbuster, rede internacional de videolocadoras que começou com 5 lojas em 1985, chegou a ter milhares delas nos EUA e no mundo, incluindo o Brasil, e desde 2019 tem só uma loja no estado do Oregon. Veja o vídeo da sua ascenção e queda (33 anos em menos de 3 minutos).

[OC] Blockbuster Video US store locations between 1986 and 2019 from r/dataisbeautiful

Quando eu comecei como planejador, nos anos 80, falava-se de um caso de miopia de marketing com as grandes ferrovias do século XIX que nunca enxergaram que o seu negócio era viagem e não trem. Pois na mudança do século XX para o XXI, em três décadas, vimos a Blockbuster crescer vertiginosamente e cair mais vertiginosamente ainda, em questão de poucos anos. Conto um pouquinho dessa história aqui.

No seu pico de crescimento em 2004, a Blockbuster tinha no mundo mais de 9 mil lojas e empregava acima de 80 mil pessoas. Desde então, o streaming de filmes matou numa tacada só as locadoras, os blurays e os dvds, os quais, por sua vez, haviam liquidado com os videocassetes VHS, no século passado.

Quem conheceu uma super-loja Blockbuster sabe que não havia maneira melhor de buscar, encontrar e assistir em casa os filmes que você queria. Claro que se podia até comprá-los em lojas de departamento ou especializadas, como a Tower  ou a FNAC, mas sempre foram comparativamente caríssimos. Ou você podia esperar até passarem na TV aberta ou na TV a cabo, o que em geral levava meses, se não mais de ano.

A Blockbuster veio para o Brasil em 1995 em uma joint venture ( BWU) com o grupo Moreira Salles, do Unibanco. Abriu uma primeira loja no Itaim Bibi, em São Paulo, e cresceu sem cessar por mais de uma década. Quando foi comprada pelas Lojas Americanas, em 2007, por R$ 186,2 milhões, contava com mais de um milhão de clientes cadastrados e 127 lojas em 12 estados.

Neste época, já em crise nos Estados Unidos, a Blockbuster havia perdido cerca de 75% de seu valor de mercado devido à concorrência com a Netflix e a RedBox, que alugavam DVDs pelo correio. O motivo da derrocada é prosaico, mas era um pilar do modelo de negócios da Blockbuster: cobrava por devolução atrasada. Os novos concorrentes, não.

DISH Blockbuster

O golpe de misericórdia veio com o aumento da banda da internet e a viabilização do streaming em alta definição. Culminou com o desaparecimento da rede de lojas e o definhamento da marca, hoje limitada a nomear, ó ironia, um serviço de streaming de uma operadora de TV por satélite, chamada DISH. Ou seja, uma sub-marca.

Aqui no Brasil, as locadoras Blockbuster mudaram de nome para Lojas Americanas Express e, aos poucos, o serviço de aluguel de filmes foi sendo descontinuado. A marca Blockbuster desapareceu para sempre no Brasil, que eu tenha conhecimento.

A Netflix chegou ao Brasil em 2011. Em 2016, a empresa já rivalizava com operadoras de TV a cabo em número de assinaturas. Hoje restam poucas videolocadoras. Em São Paulo, a Vídeo Connection, no edifício Copan, é uma das raríssimas que ainda exploram essencialmente a locação de filmes e a conversão de fitas VHS para DVD. Os clientes justificam que os melhores filmes e os grandes clássicos do passado são difíceis de encontrar nos serviços de streaming atuais. Não sei até que ponto isso é verdade e até que ponto é nostalgia e apego.

O mais curioso é o que conta o fundador da Netflix, Marc Randolph, em seu livro That Will Never Work (“Isso Nunca Irá Funcionar”): “Blockbuster poderia ter comprado a Netflix por US$ 50 milhões em 2000, mas achou a empresa cara”. Sim, este é precisamente o título de uma matéria do Valor Econômico do ano passado, que conta em detalhes essa história:

Em 2000, quando a Netflix ainda era uma startup de aluguel de DVDs pelo correio, a empresa estava em apuros. O estouro da bolha da internet a havia deixado em uma situação financeira complicada. Mas uma reunião conseguida por seus fundadores poderia salvá-la: John Antioco, CEO da Blockbuster, então líder mundial no ramo de aluguel de filmes, queria conversar sobre uma possível compra.

A compra acabou não se realizando, pois, como diz o título do livro, o CEO da Blockbuster achou que aquele negócio da Netflix não ia dar certo.

O resto da história é conhecido: a Netflix conseguiu sobreviver com seu sistema de aluguel por correio. Mais tarde, tornou-se uma das precursoras do formato de streaming e rapidamente explodiu em valor de mercado. Em 2018, chegou a estar avaliada em quase US$ 180 bilhões. A Blockbuster, mesmo em seu auge, nunca valeu mais que US$ 5 bilhões.

Leia a matéria inteira no Valor Econômico aqui: “Blockbuster poderia ter comprado a Netflix por US$ 50 milhões em 2000, mas achou a empresa cara“.

The Verge publicou em 2018 um artigo muito interessante sobre a resiliência da última Blockbuster em Oregon e as qualidades de uma boa videolocadora que perderemos quando ela fechar também: “The last Blockbuster: what we really lose when video stores shut down.

A última loja da Blockbuster em Oregon

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS e do Grupo de Planejamento de São Paulo. Ex- Presidente e atual consultor do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Saiba mais
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