A egotrip das 9 verdades e 1 mentira

Esta é uma brincadeira que se alastrou recentemente no Facebook. Meu Ego falou mais alto, aderi. Fiz 10 afirmações sobre mim. Só uma não é verdade.

O interessante é que isso se tornou um meme, repetido em diversas formas e circunstâncias, inclusive na grande mídia, fora da internet. Surgiram variações em torno do tema das 9 verdades e 1 mentira. Como sempre, as posições se radicalizaram, os opositores descendo o cacete no “ego inchado” dos que aderiram.

A tentação de revelar passagens e fatos inusitados da vida de cada um falou mais  forte. Nesse imenso universo da fofoca que é a internet em geral e o Facebook em particular, a maioria dos amigos revelou verdades e mentiras sobre sua vida pessoal. Falar do próprio umbigo é atraente.

Para os que se deram o trabalho de comentar na minha timeline aqui vai a explicação de cada passagem que vivi e mencionei. Veja também qual foi a afirmação inverídica.

1. Assisti o lançamento de um foguete de dentro da sala de comando em Cabo Canaveral.

É verdade. Em meados dos anos 90 eu era Diretor Vice-Presidente de Planejamento da J. Walter Thompson na América Latina e Caribe. Ganhamos  –  André Pinho (diretor de criação), David Byles (diretor de mídia) e eu  –  a conta do lançamento da DirecTV na região.

Viajamos a Cabo Canaveral, base espacial norte-americana na Flórida, com os acionistas e o alto comando da empresa para assistir de camarote o lançamento do primeiro satélite do novo canal, concorrente da Sky.

2. Contracenei com Annie Girardot em um filme com Alain Delon.

É verdade. Enquanto estudava em Paris, em 1972, fui fazer um bico como figurante no filme  de suspense “Traitement de Choc“, rodado quase todo em Belle Ille, na Bretanha. No começo das filmagens, um ator português ficou doente e o diretor, Alain Jessua, fez um teste entre os figurantes. Passei e fui contratado para substituí-lo. Fiquei várias semanas filmando na ilha. Ganhei o cachê que me sustentou por muitos meses em Paris.

Fiz o papel de Manoel, um dos imigrantes portugueses que trabalhavam clandestinamente na clínica do médico interpretado por Alain Delon. O Dr. Devilers tirava o sangue dos imigrantes ilegais, literalmente, para produzir o tratamento de beleza dos pacientes da clínica, membros da alta burguesia francesa. Em torno da minha morte e da descoberta do meu cadáver numa câmara fria, pela paciente amiga, Annie Girardot, se desenrola o clímax dessa alegoria política.

O mais irônico desse filme libertário é que o personagem do Alain Delon teria conhecido o tratamento com os índios da Amazônia, onde morou e aprendeu português. Dei aulas de pronúncia para ele no camarim.

O mais engraçado, típico dos anos 70,  é ver o Alain Delon, a Annie Girardot e os demais atores, pacientes da clínica, peladões em cena. Aliás, a propósito, o Estadão informou ontem: “Alain Delon anuncia fim da carreira aos 81 anos“.

E o mais curioso é a abertura com os créditos, onde apareço aos 24 anos (o último sentado atrás na camionete à direita) com a trilha sonora de ‘Paraiso de Pobre’ de Martinho da Vila, tema musical do filme.

3. Morei quase 10 anos fora, nos Estados Unidos, França, Suécia, Portugal e Argentina.

Estados Unidos: Aos 18 anos ganhei uma bolsa de estudos do American Field Service e passei um ano em Poland, Ohio (1967-68) vivendo com uma família americana para tirar o diploma do High School. No verão de 1971, ganhei outra bolsa de estudos da Interamerican University Foundation e fiz um curso de planejamento na Harvard University Summer School.

França: no ano seguinte, consegui transferência da Faculdade de Ciências Sociais da USP para a Université de Paris I, Sorbonne, onde estudei para obter o DEEG, Diplôme d’Études Économiques Générales, em 1974.

Suécia: nessa época, morei três meses em Estocolmo com uma licença temporária de trabalho para estudantes. Recolhia lixo nos quartos do Hotel Hilton. Lavei pratos e fui assistente de cozinha em um restaurante italiano. Juntei dinheiro para viajar.

Portugal: viajando, fui parar em Lisboa logo após a Revolução dos Cravos. Entre 1975 e 1976, aí vivi e trabalhei como jornalista free-lancer. Fui colaborador no jornal semanal Expresso. Viajei com a equipe da Rádio e Televisão Francesa (RTF) para fazer  um documentário sobre as ocupações camponesas no Alentejo, com o Daniel Cohn-Bendit, ou Dani, le rouge, líder estudantil das passeatas de Maio de 1968 em Paris,  político franco-alemão, ex-deputado europeu pelo Grupo Verde e hoje apresentador da RTF.

Argentina: em 199o, aceitei o convite para ser de Diretor de Planejamento no escritório da J. Walter Thompson em Buenos Aires, onde me projetei profissionalmente, fiz grandes amigos e morei até 1993.

4. Dois assaltantes armados levaram todo o meu dinheiro no Rio de Janeiro.

Acertou quem disse que essa afirmação era tão possívelmente verdadeira, que deveria ser mentira. Fui assaltado, sim, e me levaram todo o dinheiro, mas não foi no Rio de Janeiro. Foi em Roma, depois de um Seminário Sam Meek da J. Walter Thompson Europa, realizado dias antes em Como, em meados dos anos 90.

Dois indivíduos em uma moto agiram rapidamente me cercando em uma calçada escura de Roma, tarde da noite, um deles armado de faca . Como não reagi e entreguei tudo ligeiro, não foram violentos. Só não levaram o passaporte porque o tinha deixado no hotel.

5. Fiz o papel de índio em um filme com Marcelo Mastroiani e Catherine Deneuve.

É verdade. A comédia “Touche Pas À La Femme Blanche” – “Não toque na Mulher Branca” – do diretor italiano Marco Ferreri, é uma sátira da batalha de Little Bighorn, a última da Sétima Cavalaria diante dos índios sob o comando do General George A. Custer, interpretado por Marcelo Mastroiani,  Só que, ao invés do velho oeste, nesta paródia a história se passa em Paris, no começo dos anos 70, quando eu lá morava.

Descontente com as “tribos” de hippies, artistas, atores, ciganos, ativistas e anarquistas etc., que habitavam o entorno da escavação do antigo mercado municipal Les Halles (onde se construiria o atual shopping center ‘Forum des Halles’), o prefeito de Paris (Ugo Tognazzi) decide chamar o General Custer com a Sétima Cavalaria e Buffalo Bill (Michel Piccoli) para expulsar os bárbaros que atrapalhavam o progresso.

A farsa em que se tranforma a paródia se mostra nesse diálogo entre a mulher do prefeito, Marie-Hélène de Boismonfrais (Catherine Deneuve), e o general americano, com quem tem um caso amoroso:

Marie-Hélène: Confesso que não entendo a atitude dos índios. É óbvio que o Senhor dedicou essa terra aos brancos, para que a colonizassem, então por que eles resistem?
General Custer: Porque são selvagens. Selvagens!. Às vezes acho que são possuídos por demônios.
Marie-Hélène: Deus nos livre disso!
General Custer: Deus e a Sétima Cavalaria.

6. Passei por quase 20 cirurgias nos últimos 20 anos.

É verdade. A 17ª eu fiz no mês passado. Fora tirar as amígdalas aos 5 anos, todas as demais foram dos 50 anos em diante. A lista completa: amígdalas | angioplastia e stent | diverticulite | colostomia | hérnia abdominal |ligamento joelho | lifting pescoço | lipo abdominal | artrodese L5-S1 | descompressão L5-S1 | artroscopia quadril direito | artroscopia quadril esquerdo | parotidectomia parcial | descompressão L4-L5 | próstata | hérnia abdominal | parotidectomia total

7. Aos 12 anos de idade, já havia caçado veado, porco do mato, paca, jacaré e capivara.

É verdade. Passei boa parte da infância e adolescência em Mato Grosso do Sul, nos anos 50 e 60. Me apaixonei pelo Pantanal onde aprendi a pescar e a caçar com meu pai e amigos pantaneiros. Ganhei uma espingarda 22 aos 9 anos e aprendi a atirar com ela, com uma cartucheira 20, com uma carabina e um revólver 38. Meu pai me ensinou a soltar o peixe que ninguém iria comer e a poupar a caça que não fosse virar rango.

Mas cometi pecados dos quais hoje me arrependo. Recebi dinheiro para matar periquitos que dizimavam as frutas do pomar na fazenda do Tico. Treinei tiro ao alvo em jacarés da baia no Rio Negro. Matei a porca de raça do Sr. Timóteo na fazenda Retirinho, achando que era porco-do-mato. Matei capivara que nunca comi.

Hoje não caço mais, porém continuo indo todo ano ao pantanal sul-matogrossense pescar nas fazendas de alguns amigos de infância.  Mas eesa é outra história.

8. Tenho quatro filhos e nenhum tem o mesmo casal de pai e mãe.

É verdade. Do meu primeiro casamento com a Tania Celidonio, tenho a Mariana. Depois me casei com a Bia Blandy que me deu meu caçula, Theo. Bia trouxe para morar conosco a filha do seu ex-marido, Pedro Cortizas. A Anita tinha um ano e eu a criei como filha. Bia também trouxe o Diego Cortizas de 5 anos, filho do Pedro com sua primeira mulher, a modelo japonesa Lia. Diego foi criado em casa, mas não era nem filho da Bia nem meu. Talvez os quatro não fossem tão unidos e companheiros se fossem irmãos verdadeiros de sangue.

9. Já votei no FHC, Brizola, Lula, Marina, Serra, Suplicy e Haddad.

É verdade. Em momentos diferentes da nossa história votei em cada um deles. Não tenho o que explicar dessa diversidade. Melhor deixar para lá…

10. Vivi com uma modelo italiana que conheci em cima de um tanque de guerra.

É verdade. Em 1975, conheci a Gwenael Amendola em cima da um tanque dos Comandos da Amadora, que desfilavam pela Avenida Dom Carlos I, em Lisboa, em uma manifestação a favor da Revolução dos Cravos, ocorrida a menos de um ano antes (abril de 1974).

Era italiana e tinha acabado de chegar a Portugal com o namorado Jacopo Fo, escritor, ator, cartunista, diretor e ativista cultural italiano, filho do falecido escritor e dramaturgo Dario Fo (Nobel de Literatura em 1997). Jacopo queria ilustrar a ebulição revolucionária de Portugal para a revista francesa, Metal Hurlant (publicada também nos Estados Unidos com o nome de Heavy Metal).

Gwenal e eu nos conhecemos durante a passeata, nos tornamos amigos e depois namorados. Moramos um ano e meio em Portugal e depois outro tanto no Brasil. Ela tinha sido modelo do fotógrafo David Hamilton e no Brasil trabalhou com moda, foi capa da Playboy e Status.

 

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Planejador de marca e comunicação. Fundador da agência NBS. Vice-Presidente do Grupo de Planejamento. Presidente do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental. Fotógrafo amador, blogueiro e pescador idem. Saiba mais
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